Administração por via tópica

A administração de um medicamento por via tópica visa a obtenção de uma acção local sobre o tecido ou órgão afectado, de modo a que os princípios activos passem em quantidade diminuta para a circulação sanguínea, evitando-se os efeitos sistémicos.

Administração cutânea

Topo Dado que a pele, ao contrário dos órgãos internos, se encontra muito exposta ao exterior e se caracteriza por uma capacidade de absorção limitada, pode-se proceder à aplicação directa sobre a sua superfície de medicamentos elaborados especificamente para exercer uma acção local nos tecidos cutâneos, passando uma quantidade diminuta de princípio activo para a circulação sanguínea, de forma a não exercer efeitos sobre o resto do organismo.

Existem formas muito diferentes de apresentação de medicamentos concebidos para a administração cutânea, a maioria sob a forma de creme, pomada, gel, solução ou pó. Os produtos mais utilizados são as pomadas, de consistência mole e untuosa, baseadas numa mistura de princípios activos com substâncias oleosas que preservam a humidade da pele e são utilizadas, sobretudo, no tratamento de lesões secas. Os cremes são pomadas em forma de emulsão e, consequentemente, de consistência mais fluida, à semelhança dos unguentos, mais viscosos, constituídos por resinas ou bálsamos. Por outro lado, as pastas, embora sejam igualmente semi-sólidas têm uma maior consistência do que as pomadas, devido ao facto de serem constituídas por uma maior quantidade de componentes sólidos, o que faz com que tenham a tendência para absorver as secreções cutâneas e macerar a pele. Também se pode aplicar formas farmacêuticas sólidas directamente sobre a pele, como os pós, que devem ser utilizados, sobretudo, nos sectores do corpo que costumam estar humedecidos, em especial nas pregas cutâneas. Por último, também existem as formas farmacêuticas líquidas, como as loções, correspondentes à dissolução de pós num líquido normalmente aquoso e que costumam ser utilizadas nos tratamentos capilares e do couro cabeludo, ou os linimentos, um pouco mais aquosos e que normalmente são aplicados através de uma massagem.

Técnica. Antes de se proceder à aplicação de pomadas, cremes ou outros, deve-se lavar as mãos e, a menos que o médico tenha dado instruções especiais que o contra-indiquem, também se deve lavar a zona a tratar com água e sabonete ou com soro fisiológico, de modo a eliminar-se secreções ou restos de administrações anteriores, e secá-la cuidadosamente. Em seguida, deve-se depositar uma quantidade suficiente do produto sobre a zona a tratar, de modo a evitar excessos, e espalhar de forma suave e uniforme, com o intuito de evitar o contacto com os orifícios naturais (olhos, boca, etc.), devendo-se apenas efectuar uma fricção caso seja indicada pelo médico, pois normalmente não costuma ser necessário para que os medicamentos desenvolvam a sua acção local. Quando ficarem excessos devem ser retirados com uma gaze, sobretudo nas zonas das pregas da pele.

Quando se proceder à aplicação de pomadas sobre zonas extensas, deve-se seguir uma sequência previamente determinada, de modo a conseguir-se obter uma correcta distribuição do produto. Na face, deve-se depositar uma pequena quantidade na fronte e, depois, espalhar o produto até às bochechas e maxilar inferior, em direcção ao pescoço, evitando que entre em contacto com a boca e os olhos; no tronco, deve-se começar pela linha média do pescoço, para depois espalhar o produto lateralmente e descer pelo peito até à pélvis ou pelas costas até às nádegas; nos membros, deve-se começar por uma ponta do membro e, depois, espalhar o produto em sentido descendente, até à mão ou pé.

Administração ocular

Topo Neste caso, o medicamento deve ser aplicado sobre os olhos, embora não directamente sobre a superfície ocular, como se explica em seguida. Existem dois tipos básicos de produtos oftalmológicos: os líquidos, denominados colírios e administrados através de gotas, e outros semi-sólidos, as pomadas oculares, cuja técnica de aplicação é semelhante. Apesar de poder ser o próprio paciente a proceder à sua aplicação, a administração deve ser realizada por outra pessoa, já que o fará com melhores resultados.

Quando se proceder à sua aplicação, o paciente deve sentar-se e colocar a cabeça para trás; em caso de um bebé pouco cooperante, o mesmo pode permanecer deitado. Depois de se aplicar o colírio, o paciente deve inclinar a cabeça para o lado do olho afectado, de modo a que, caso seja aplicado em excesso, o produto que eventualmente transborde não chegue até ao olho saudável. Caso o bebé se encontre deitado, consegue-se o mesmo efeito, colocando-se o bebé sobre o lado do olho afectado. Antes de se administrar o medicamento, deve-se limpar a zona ao passar-se uma gaze esterilizada, humedecida em soro fisiológico, pela fenda da pálpebra desde o ângulo interno até ao externo, com vista a que as secreções ou crostas que existam nas pálpebras e pestanas sejam eliminadas. Em seguida, deve-se preparar o medicamento, destapando-se o frasco do colírio e aspirando-se com o conta-gotas a quantidade prescrita ou retirando-se a tampa do tubo da pomada.

Depois de tudo preparado, o ajudante deve pedir ao paciente que abra bem os olhos e olhe para cima. Seguidamente, o ajudante deve baixar, com uma das mãos, a pálpebra inferior do olho afectado, agarrando suavemente a pele do pómulo, e com a outra deixar cair uma gota do colírio ou aplicar um pouco de pomada no saco da conjuntiva, nunca directamente sobre a superfície do olho, tentando sempre evitar que a embalagem entre em contacto directo com a pálpebra ou pestanas, porque poderia contaminar-se. Depois, o ajudante deve largar a pálpebra, para que o medicamento se distribua pelo olho, e pedir ao paciente que pestaneje, caso se tenha aplicado um colírio (quando se tiver de aplicar várias gotas, deve-se pestanejar depois de colocar cada uma) ou mantenha os olhos fechados durante um ou dois minutos, em caso de pomada. Por fim, deve-se limpar o medicamento em excesso com uma gaze esterilizada.

Administração ótica

Topo O tratamento local das patologias do ouvido baseia-se na utilização de medicamentos líquidos, as gotas óticas, que devem ser aplicadas mediante a utilização de um conta-gotas, no canal auditivo externo. Embora possa ser o próprio paciente a proceder à sua aplicação, a sua administração deve ser realizada por outra pessoa, a qual poderá manejar melhor o conta-gotas, de modo a evitar que entre em contacto directo com o ouvido e comprovar com maior fiabilidade a penetração do produto pelo canal auditivo.

Antes de se proceder à sua administração, deve-se amornar o medicamento através da manutenção do frasco na mão até que o líquido alcance uma temperatura próxima à do corpo, já que a instilação de gotas frias no ouvido torna-se desagradável e pode até desencadear tonturas. Esta precaução é importante, sobretudo no Inverno e quando o medicamento é guardado a uma temperatura ambiente.

Para se proceder à sua administração, o paciente deve sentar-se e inclinar a cabeça para o lado saudável ou deitar-se sobre o lado saudável. Em primeiro lugar, o ajudante deve destapar o frasco e aspirar uma quantidade suficiente de medicamento com o conta-gotas. Depois de tudo preparado, o ajudante deve puxar o pavilhão auricular para cima e para trás, de modo a endireitar o canal auditivo e permitir que as gotas aplicadas che- guem à zona mais interna. No caso de o paciente ser um bebé com menos de 3 anos de idade, no qual a forma do canal auditivo é diferente da do adulto, pode-se obter o mesmo efeito ao puxar-se o pavilhão auricular para trás e um pouco para baixo. Com a outra mão, o ajudante deve colocar o conta-gotas sobre a orelha, mas evitando que a sua ponta entre em contacto directo com a superfície para que não se contamine, e instilar a quantidade de gotas prescritas deixando-as cair sobre a parede lateral do canal auditivo, de modo a que as mesmas escorreguem para o seu interior sem formarem uma câmara de ar e sem que alcancem directamente o tímpano. Deve-se manter a orelha esticada alguns momentos, com o objectivo de se facilitar a progressão do medicamento, até se comprovar que penetra totalmente no canal auditivo. Em seguida, o paciente deve manter essa posição durante cinco a dez minutos, para proporcionar a chegada do medicamento à parte mais profunda do canal auditivo; depois, caso seja necessário, já se pode repetir a operação no outro ouvido. Deve-se referir que, após a instilação de gotas, nunca se deve tapar o ouvido com algodão seco, pois o mesmo poderia ab- sorver parte da medicação, sendo apenas necessário manter-se o ouvido tapado, caso o médico assim o indique, o que se pode fazer com um algodão empapado na solução do medicamento.

Administração nasal

Topo O tratamento local das patologias do nariz ou dos sectores das vias respiratórias relacionadas com as fossas nasais, como os seios perinasais, baseia-se na utilização de medicamentos líquidos, que devem ser administrados sob a forma de gotas nasais, ou através de um nebulizador ou spray, mediante um processo de nebulização.

Gotas nasais. Para administrar as gotas nasais, o paciente deve deitar-se de costas e esticar o pescoço de forma a inclinar a cabeça para trás, depois de ter colocado uma almofada debaixo dos ombros. Antes de proceder à sua administração, o paciente deve amornar o medicamento mantendo o frasco na mão ou num bolso por alguns segundos até que o líquido alcance uma temperatura próxima à do corpo, já que a instilação de gotas frias no nariz pode desencadear espirros.

Esta precaução é importante, sobretudo no Inverno e quando o medicamento é guardado à temperatura ambiente. Em primeiro lugar, o paciente deve agitar o frasco, destapá-lo e aspirar uma quantidade suficiente de medicamento com o conta-gotas. Depois, o ajudante deve abrir, com a mão livre, o orifício nasal em que deve instilar as gotas, levantando suavemente a ponta do nariz. Em seguida, o ajudante deve introduzir, com a outra mão, o conta-gotas com a ponta ligeiramente levantada para cima, cerca de 1 a 1,5 cm, no orifício nasal, de modo a evitar que toque as paredes da fossa nasal, e instilar a quantidade de gotas prescritas. Todavia, caso o paciente seja um bebé, em vez de se introduzir o conta-gotas no orifício nasal ou entrar-se em contacto directo com o mesmo, deve-se proceder à sua instilação desde o exterior. Depois de se proceder à sua administração num dos orifícios nasais, caso seja necessário, pode-se repetir a operação no outro lado. O paciente deve permanecer com a cabeça em hiperextensão durante, no mínimo, cinco minutos, respirando pela boca e sem assoar-se durante um bocado.

Nebulização. Como existem vários tipos de nebulizadores, cada um com a sua forma de accionamento específico explicada na bula em anexo, as suas instruções devem ser rigorosamente cumpridas. Para se proceder a uma nebulização, o paciente deve, depois de preparar o dispositivo aplicador de forma correspondente ao modelo em questão, sentar-se com as costas direitas, inclinar a cabeça para trás, introduzir a ponta do nebulizador no orifício nasal e apertar o nebulizador ou accionar o aplicador até administrar a dose prescrita, enquanto fecha o outro orifício nasal e inspira através do orifício que acaba de nebulizar. Caso seja necessário, pode-se proceder à realização da operação no outro lado. Neste caso, o paciente deve manter a cabeça inclinada para trás e respirar pela boca durante cinco minutos.

Informações adicionais

Administração vaginal

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A administração de medicamentos destinados a exercer uma acção local na vagina baseia-se na utilização de produtos de diferente forma de apresentação. Os mais comuns são os óvulos vaginais, semelhantes aos supositórios administrados por via rectal, mas um pouco maiores, constituídos por uma substância fusível (por exemplo, glicerina) à qual se deve adicionar os princípios activos. A administração de um óvulo vaginal necessita que a mulher se deite de costas, afaste os joelhos e o introduza o mais profundamente possível com o dedo, devendo-se manter deitada durante cerca de cinco minutos após a aplicação. Pode-se igualmente recorrer à utilização de geles e cremes, que devem ser administrados através de um aplicador semelhante a uma seringa presente na embalagem do produto, e aerossóis e espumas, cuja embalagem já possui um aplicador de fácil utilização.

O médico responde

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Depois de ter colocado gotas de colírio nos olhos, notei um sabor amargo na boca. É normal?

De facto, sim. Após a instilação de um colírio, parte do líquido depositado no saco da conjuntiva pode passar para o canal nasolacrimal e chegar à nasofaringe, proporcionando a percepção do seu sabor na boca, muitas vezes amargo. Trata-se de algo perfeitamente normal que, consequentemente, não deve constituir motivo de preocupação.

Inalação de aerossóis por via bucal

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Como este método consiste na administração de um medicamento pela boca, sob a forma de reduzidas partículas de pó ou minúsculas gotas, destinado a actuar sobre a árvore brônquica, pode ser considerado uma forma de administração tópica, utilizada essencialmente no tratamento da asma brônquica. Quando se recorrer a um inalador, deve-se utilizá-lo correctamente, pois caso contrário é possível que o medicamento fique depositado na boca ou na primeira parte das vias respiratórias, sem chegar ao sector em que é necessária a sua acção. Basicamente, para se proceder à aplicação, em primeiro lugar, deve-se fazer uma expiração, de modo a esvaziar-se os pulmões, e depois introduzir o bocal do inalador na boca, revestindo-o bem com os lábios. Em seguida, deve-se iniciar uma aspiração lenta e, ao fim de alguns instantes, deve-se apertar o dispositivo para se libertar o aerossol, ao mesmo tempo que se deve tornar a inspiração mais profunda com vista a que o aerossol se distribua bem pelos brônquios. Quando terminar a inspiração, deve-se suster a respiração cerca de 20 a 25 segundos, devendo-se administrar uma nova dose caso tenha sido prescrita.

Como a eficácia da terapêutica depende, sobretudo, da correcta utilização do inalador, deve-se solicitar instruções precisas ao médico e até aprender a sua utilização sob a supervisão do mesmo, através da realização de um treino com produtos inactivos.

O médico responde

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Embora o médico me tenha recomendado gotas nasais para tratar uma rinite, aconselhou-me a não abusar da aplicação. Qual o intuito deste aviso?

Este é um exemplo claro da complexidade consequente da indicação de um medicamento. Como a congestão nasal provocada por uma rinite é proporcionada pela dilatação dos vasos sanguíneos da mu- cosa que reveste as fossas nasais, pode-se contrariar e atenuar os in- cómodos originados pela mesma através da utilização de um medicamento vasoconstritor sob a forma de gotas ou aerossol. Contudo, existem muitos casos em que, depois de o seu efeito (de duração limitada) ser superado, se produz uma nova vasodilatação e o consequente reaparecimento da congestão nasal. Caso se volte a utilizar o produto, o ciclo repete-se, o que pode desencadear um ciclo vicioso que torna a respiração da pessoa dependente das gotas ou do nebulizador, mesmo quando a causa original tenha sido eliminada, sendo por isso que o médico apenas costuma recomendar a sua utilização durante alguns dias.

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