Bronquite crónica

A ínflamação crónica da mucosa que reveste os brônquios, normalmente provocada pelo tabagismo, origina uma alteração da função respiratória, causando várias complicações que, em conjunto, deterioram a qualidade de vida.

Causas

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A doença é provocada por uma irritação persistente da mucosa brônquica, normalmente em consequência do efeito prejudicial do fumo do tabaco. Na verdade, existem inúmeros estudos a demonstrar que praticamente todas as pessoas com bronquite crónica são fumadoras. O fumo do tabaco contém inúmeras substâncias prejudiciais para a mucosa brônquica, tendo em conta que algumas provocam uma estimulação excessiva das células produtoras de muco, o que acaba por aumentar a sua actividade secretora, enquanto que outras danificam as células ciliadas, diminuindo o seu número e tamanho. De facto, a acumulação no seu interior de uma grande quantidade de secreções mucosas que o movimento ondulante dos cílios das células superficiais não consegue evacuar, tende a provocar uma diminuição muito significativa dos mecanismos de defesa dos brônquios, o que cria o ambiente favorável para a proliferação dos micoorganismos que eventualmente penetrem com o ar inspirado, favorecendo o aparecimento periódico de infecções agudas. Além disso, as células pertencentes ao sistema imunológico, que costumam estar presentes na mucosa brônquica, são inibidas pelo efeito de determinadas substâncias presentes no fumo do tabaco, não sendo capazes de eliminar com eficácia as pequenas partículas que chegam do exterior, o que acaba por provocar a deterioração do tecido dos pulmões e, consequentemente, o intercâmbio de gases do ar com o sangue.

Todo este processo produz-se de forma progressiva ao longo do tempo em que se mantém o consumo de tabaco, mas dez a quinze anos depois de se ter iniciado o hábito começam a aparecer as modificações da bronquite crónica. Existem outros factores que favorecem os efeitos nocivos do tabaco, como a permanência em ambientes repletos de fumos, gases ou vapores irritantes, algo típico em determinadas actividades laborais, mas especialmente a contaminação atmosférica das grandes cidades, que só por si tem efeitos nocivos sobre os brônquios.

Manifestações e evolução

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A manifestação típica da bronquite crónica é uma tosse acompanhada de expectoração, sendo este um mecanismo através do qual as secreções acumuladas nos brônquios conseguem ser expulsas para o exterior. Trata-se de uma tosse persistente que, embora surja de maneira lenta e progressiva, acaba por se intensificar com o decorrer dos anos. Na verdade, na maioria dos casos, os indivíduos afectados não conseguem definir com clareza o momento do seu aparecimento, tendo em conta que inicialmente apenas constitui um problema ocasional, só se reparando nele quando se torna realmente persistente.

De início, a expectoração é mucosa, ou seja, esbranquiçada ou mesmo incolor, do tipo clara de ovo. Contudo, com o decorrer do tempo, a tosse e a expectoração, embora se- jam mais intensas de manhã, vão surgindo também durante o dia, por vezes sob a forma de acessos muito violentos acompanhados por uma sensação de dificuldade respiratória.

Começando numa tosse com expectoração persistente, os sintomas vão-se acentuando, regra geral periodicamente através do desenvolvimento de agudizações, ou seja, episódios de bronquite aguda que costumam durar entre duas ou três semanas. Estas agudizações são mais comuns no Inverno e provocam, além de um aumento da frequência e intensidade da tosse e alterações da expectoração (mais espessa e de cor amarelada ou esverdeada), febre, mal-estar geral, dores e outras manifestações típicas. Os sintomas agudos cedem com o tratamento adequado, após a resolução da infecção, ao contrário da tosse e da expectoração, que ficam mais intensas após cada episódio de bronquite aguda. Com o passar do tempo e à medida que as defesas brônquicas sofrem uma progressiva deterioração, os episódios agudos tornam-se mais frequentes e prolongados, por vezes sucedendo-se uns após os outros durante grande parte do ano.

Quando a doença atinge maior gravidade, as alterações persistentes da mucosa brônquica provocam uma obstrução da passagem do ar para os pulmões, o que origina uma característica sensação de dificuldade respiratória, ou dispneia, ao princípio apenas quando se realiza algum esforço, mas gradualmente mais contínua, chegando a dificultar as actividades quotidianas.

Complicações

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Além de favorecer os episódios de bronquite aguda, a progressiva evolução da bronquite crónica provoca complicações que, salvo casos muito raros em que sejam eliminadas as causas, acabam por se manifestar com maior ou menor frequência em todos os indivíduos afectados.

A complicação mais comum é provocada pela inflamação da mucosa e o estreitamento dos brônquios, especialmente dos mais finos, pois provoca uma obstrução à passagem do ar, perturbando particularmente a saída de ar dos pulmões. Como consequência, embora penetre com uma certa facilidade nos sacos alveolares em cada inspiração, o ar não consegue sair em perfeitas condições ao longo da expiração, provocando um progressivo aumento da pressão no seu interior, o que facilita a ruptura das finas paredes alveolares, dando origem ao desenvolvimento de um enfisema, uma doença que se caracteriza pela dilatação alveolar e pelo consequente défice da função respiratória. De facto, é tão  frequente a associação da bronquite crónica ao enfisema que ambas as alterações pertencem, juntamente com a asma brônquica crónica e a bronquiectasia, a uma síndrome habitualmente denominada "doença pulmonar obstrutiva crónica. Esta situação provoca, a médio prazo, uma insuficiência respiratória, devido à diminuição das trocas gasosas entre o ar e o sangue dos pulmões, com um consequente défice de oxigenação e um aumento da concentração de dióxido de carbono que, por não ser adequadamente eliminado, vai-se acumulando no organismo. Para além dos sintomas típicos, tais como cansaço, dificuldade respiratória e coloração azulada da pele (ciano- se), a bronquite crónica provoca outro perigo, pois a medula óssea, ao tentar compensar a situação, de modo a aproveitar ao máximo o oxigénio presente no ar proveniente dos pulmões, fabrica glóbulos vermelhos em excesso, provocando um aumento da viscosidade do sangue e o consequente perigo de trombose ou embolias.

Por outro lado, o défice de ventilação de algumas zonas dos pulmões provoca alterações na circulação pulmonar, as quais originam uma sobrecarga do coração, um órgão que tem que fazer um esforço maior para impulsionar o sangue para os pulmões, de modo a proceder a sua oxigenação. A longo prazo, este esforço excessivo, adicionado ao próprio défice de oxigenação do miocárdio, pode originar uma insuficiência cardíaca, uma habitual complicação da bronquite crónica de longa duração que origina uma deterioração ainda mais significativa da qualidade de vida dos pacientes.

Tratamento

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A medida fundamental para travar o avanço da bronquite crónica é a eliminação do factor causador, ou seja, o tabagismo. Em muitos casos permite recuperar a capacidade respiratória, apesar de não tão satisfatória como a dos fumadores antes da produção de lesões pulmonares irreparáveis, mas pelo menos superior à existente enquanto se mantém esse hábito. A adopção precoce desta medida, logo que se manifestam os sintomas da bronquite crónica, é o suficiente para resolver o problema e prevenir complicações. De qualquer forma, lamentavelmente, sempre que as lesões brônquicas e pulmonares sejam permanentes, embora seja aconselhável o abandono do consumo de tabaco, isso não será suficiente para evitar todos os problemas provocados por uma bronquite crónica - serão necessárias algumas medidas terapêuticas.

Por exemplo, é fundamental que todas as pessoas com bronquite crónica evitem os ambientes contaminados e não se exponham ao frio, pois favoreceriam o aparecimento de complicações infecciosas agudas, sendo necessário o seu tratamento adequado. Aconselha-se a administração anual de uma vacina antigripal como medida de precaução e, para além disso, em alguns casos, o médico deve igualmente prescrever antibióticos durante as épocas frias, como prevenção.

Para melhorar a ventilação pulmonar, normalmente, recorre-se utilização de fármacos broncodilatadores, de diferentes tipos, administrados por via sistémica ou por aerossóis. Também se pode utilizar medicamentos destinados a fluidificar as secreções brônquicas e facilitar a expectoração, embora o método mais simples e eficaz consista em assegurar uma adequada ingestão de 1íquidos, não inferior a 21 por dia Como tratamento complementar, de acordo com as necessidades de cada caso, pode-se proceder a uma fisioterapia respiratória, por exemplo, para fortalecer a musculatura implicada e também para aprender a expulsar de forma mais eficaz as secreções brônquicas através da tosse. A prática regular de uma actividade física moderada e o cumprimento de uma alimentação equilibrada que previna ou combata o excesso de peso são medidas que também devem ser seguidas. Por ultimo, em caso de desenvolvimento de um quadro de insuficiência respiratória como complicação da doença, devem ser implementadas as terapêuticas adequadas para atenuar o problema, entre as quais se incluem o internamento hospitalar do paciente e a administração de oxigénio em baixo débito durante o tempo necessário.

Informações adicionais

Tosse de fumador

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A bronquite crónica é responsável pela típica tosse produtiva que, todas as manhãs, perturba os indivíduos fumadores quando se levantam.

Para o médico, a informação de uma tosse produtiva matinal, problema habitual num fumador, é o suficiente para suspeitar de uma bronquite crónica. Para além disso, o diagnóstico de bronquite crónica estabelece-se quando uma pessoa apresenta tosse, normalmente com expectoração, durante noventa dias por ano, mesmo que não sejam consecutivos, durante dois anos seguidos, não sendo esta provocada por uma outra doença broncopulmonar específica.

O médico responde

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Ultimamente tenho bastante tosse de manhã, talvez provocada pelo tabaco. Por isso, pensei em mudar a marca que fumo por outra mais baixa em nicotina e alcatrão...

O fumo produzido pela combustão do tabaco é composto por uma grande quantidade de substâncias, sensivelmente quatro mil, muitas das quais com efeitos irritantes sabre a mucosa brônquica.

De facto, nem todas as formas de fumar provocam o mesmo risco; porém, este não depende da composição do fumo que se inspira, mas sim da frequência com que é inalado. Por exemplo, quem fuma charutos ou cachimbo inspira uma menor quantidade de fumo do que os que fumam cigarros, o que afecta menos as vias aéreas. Todavia, no caso dos fumadores de cigarros, os benefícios de passar de um tabaco para outro não são muito evidentes: por um lado, constatou-se que muitos fumadores que passam para cigarros "light" inspiram com mais força e consumem mais cigarros, de modo a obter um nível de nicotina semelhante ao que o seu organismo estava habituado; por outro lado, embora com esta medida seja possível reduzir a quantidade de alcatrão que penetra nos brônquios, não se evitam muitas outras substâncias nocivas. Se, tal coma pensa, a tosse que o afecta é provocada pelo tabaco, a sua solução não é de todo a mais adequada, pois deve-se consciencializar dos prejuízos provocados pelo tabagismo e tentar abandonar definitivamente o hábito, por si próprio ou solicitando a ajuda de um especialista.

Prognóstico

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A bronquite crónica associada às suas complicações habituais constitui uma das principais causas de mortalidade,...

pois calcula-se que o risco de mortalidade é quatro vezes superior entre as pessoas afectadas por esta doença do que na população em geral. Contudo, as consequências da doença dependem bastante do estádio em que é diagnosticada e da adopção das medidas adequadas para evitar a sua progressão, entre as quais é fundamentalmente o abandono do tabaco. Nas fases iniciais, e como a doença não é irreversível, pode-se evitar a sua progressão, caso se tomem as medidas adequadas. Por outro lado, em caso de lesões brônquicas e pulmonares irreversíveis, o prognóstico é muito mais desfavorável, embora seja sempre benéfico o abandono do tabaco. Calcula-se que do total dos indivíduos afectados por uma insuficiência respiratória intensa provocada por bronquite crónica, metade morre num período compreendido entre cinco e dez anos. A bronquite crónica constitui, assim, uma doença que deve ser sempre considerada perigosa.

Conselhos para o paciente com bronquite crónica

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• Não fumar: se não conseguir abandonar o hábito sozinho, solicite ajuda profissional.

• Evitar a permanência em ambientes contaminados, repletos de pó, fumos ou vapores irritantes.

• Evitar os ambientes muito secos, recorrendo a humidificadores.

• Beber líquidos em abundância, pelo menos 21 diários.

• Proteger-se do frio com roupas adequadas a temperatura ambiental, sem provocar um calor excessivo.

• Manter uma actividade física moderada e regular, pelo menos um passeio diário.

• Evitar o excesso de peso, cumprindo dieta em caso de obesidade.

• Respeitar as prescrições do médico e solicitar toda a informação oportuna sobre a dose, o modo de administração e os eventuais efeitos secundários dos medicamentos indicados.

• Solicitar informação sobre a conveniência em administrar a vacina contra a gripe no Outono todos os anos.

Para saber mais consulte o seu Pneumologista
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