Criopreservação das células do cordão: Sim ou Não?

Eu digo sim, mas com informação para apoiar a decisão.

As células do cordão e o seu armazenamento são sempre um dilema para os pais. O ideal? Nunca precisar e salvar alguém com as células do nosso filho ou filha. Mas o ideal é difícil de alcançar e por isso devemos, pelo menos, aspirar o razoável…

Referindo alguns números, apenas cerca de 5% dos autotransplantes são feitos em crianças. A esmagadora maioria necessita de um órgão de outra pessoa, pois a sua informação genética está comprometida. Na realidade, na melhor das hipóteses, só 4 em cada 1.000.000 de unidades criopreservadas serão usadas para um autotransplante numa criança (ou seja, transplante usando material próprio). Assim, com as indicações para o autotransplante a serem tão limitadas, se considerarmos o custo/benefício de uma criopreservação de células do cordão a nível dos bancos privados, onde o custo que estes praticam são elevadíssimos, a balança pende para não criopreservar ou usar um banco público. Mas o banco público é mais barato? Não creio, mas está disponível para todos os que precisarem, tanto a nível nacional como internacional, o que torna o seu custo eticamente aceitável e, senão mesmo, mandatório.

A questão os bancos privados que fornecem este serviço, relaciona-se com as campanhas demarketing habilmente feitas para se aproveitarem de uma suscetibilidade emocional do casal nesta altura de vida com promessas que nem sempre são tradutoras de verdade. A título de exemplo, há bancos privados que referem a potencial aplicação das células do cordão umbilical no tratamento de leucemias. Ora, atualmente o autotransplante não é considerado como a melhor opção nestes casos, dada a ausência do efeito “graft versus leukemia” e o risco da existência de células leucémicas clonais no enxerto. Por estes motivos e outros, há países onde os bancos privados são proibidos, como na França ou em Itália. Contudo, para que a dádiva pública isto seja possível, há que garantir a existência de, pelo menos, um banco público, no cumprimento do princípio da justiça social. A conservação em bancos públicos assenta nos princípios do altruísmo, da gratuitidade, da confidencialidade e da máxima qualidade, com critérios de seleção restritos. Têm utilidade comprovada e são gratuitos. A dádiva serve para transplantes em qualquer pessoa que deles possa precisar, em qualquer parte do mundo. E ainda assim, apesar desta articulação internacional, continua a haver doentes para quem não se consegue encontrar dador compatível…

Posto isto, a minha opinião é a favor da criopreservação em banco público. Em Portugal dispomos da Lusocord, mas a verdade é que este não é verdadeiramente público já que não está acessível a todos. O acesso a ele apenas é possível se a criança nascer no norte do país e numa de 3 unidades de saúde: Centro Hospitalar de São João, Hospital Pedro Hispano – ULS de Matosinhos e Maternidade Júlio Dinis – Centro Hospitalar do Porto. De referir que houve um período, por exemplo ainda em 2010, quando nasceu o meu filhote Tomás, onde o acesso à Lusocord era realmente universal pois aceitava doações de todas as unidades de saúde, públicas ou privadas… Contudo, a crise e a falta de recursos económicos (ou a falta de vontade de não os disponibilizar para este efeito), levou a várias restrições, inclusivamente com encerramento do banco por alguns meses. Felizmente está de novo aberto mas ainda com as referidas restrições de acesso ao mesmo. Ora, como “quem não tem cão, caça com gato”, na impossibilidade de acesso ao banco público e havendo possibilidade económica por parte dos pais/família, o banco privado pode e deve ser considerado, porque o futuro a “Deus pertence”, mas se nos deixa mais sossegados (e deixa) saber que na eventualidade podemos ter um recurso, quem sou eu ou qualquer outra pessoa para julgar seja quem for… Eu faria o mesmo, apesar de “remota” a possibilidade de necessitar das células do próprio. Felizmente pude doar as células dos meus filhos para o banco público e só espero que elas possam ajudar alguém. Mas relembro o mais importante: tal como nas vacinas, isto é um extra que podemos ou não oferecer aos nossos príncipes e princesas, mas não é isto que faz de nós melhores ou piores pais que os outros…

Até breve,

Brenda, Mãe de dois Príncipes e Médica de Família

*Artigo de opinião de abril de 2015 sobre a criopreservação de células estaminais no Blog - The Cute Mommy. 

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