Os medicamentos e a sua utilização

Actualmente, dispomos de uma enorme variedade de medicamentos, de origem muito diversa, extremamente úteis para o tratamento de várias doenças, desde que sejam prescritos e utilizados correctamente.

O que são os medicamentos?

Topo Definem-se como medicamentos os produtos com propriedades terapêuticas utilizados no combate às doenças e na prevenção e diagnóstico de alguns problemas. Contudo, os mais comuns são os destinados ao tratamento das doenças depois de diagnosticadas, embora com diversas finalidades consoante a sua acção. Alguns, por exemplo, apenas servem para aliviar ou suprimir os sinais e sintomas incómodos causados por uma doença, sem solucionar a causa: são os medicamentos sintomáticos, como os analgésicos, antipiréticos, ou ou antitússicos. Outros, pelo contrário, servem para atacar a causa da doença: são os medicamentos curativos, cujo exemplo mais evidente corresponde aos antibióticos, capazes de destruir os microorganismos responsáveis por uma infecção.

No entanto, deve-se referir que apenas é considerado como medicamento o produto que se mostre, por um lado, eficaz, ou seja, capaz de conseguir as modificações celulares ou bioquímicas adequadas para proporcionar o benefício pretendido, e que seja, por outro lado, relativamente inócuo quando utilizado em quantidades suficientes para conseguir esse efeito, o que depende da composição do produto e da sua forma de utilização.

Composição e origem

Topo A grande maioria dos medicamentos é composta por uma mistura de substâncias. A parte fundamental corresponde a um ou vários princípios activos, que são as substâncias directamente responsáveis pelos efeitos benéficos. As restantes, que ocasionalmente constituem a maior parte do conteúdo do medicamento, correspondem aos excipientes, substâncias de natureza diversa, cuja função consiste em servir de suporte aos princípios activos, proporcionar a sua adequada conservação e facilitar a sua administração.

A origem dos medicamentos é muito variada. Muitos são de procedência natural: mineral (como o ferro, utilizado para tratar certas formas de anemia), vegetal (como múltiplos princípios activos contidos nas raízes, folhas, flores, frutas ou sementes de várias plantas), animal (como a insulina de porco utilizada no tratamento da diabetes mellitus) e até microbiano (como alguns antibióticos produzidos por alguns fungos). Mesmo que alguns destes produtos possam ser utilizados tal como são encontrados na natureza, hoje em dia, costumam ser processados em laboratório, de modo a purificar-se os seus princípios activos e poder-se calcular com precisão a quantidade utilizada, proporcionando maior segurança e eficácia na sua administração. Por vezes, estes princípios activos são modificados em laboratório para obter produtos semi-sintéticos com maior potência ou menos efeitos indesejáveis. Outros medicamentos são obtidos em laboratório mediante processos de síntese, através de reacções químicas a partir de substâncias simples, o que constitui, actualmente, a principal fonte de princípios activos. Hoje em dia, pode-se obter medicamentos através de sofisticadas técnicas de engenharia genética, como acontece, por exemplo, com a insulina humana e a hormona do crescimento. Deve-se ter em conta, igualmente, que embora existam medicamentos muito semelhantes, devido ao facto de serem constituídos pelos mesmos princípios activos, pode-se distingui-los através da sua diferente composição, pois evidenciam distintos excipientes ou diferentes proporções dos mesmos. Esta diferença é muito significativa, já que pode determinar um diferente grau de absorção das substâncias activas - por isso, deve-se ter em conta toda a composição do medicamento e não só a dos seus princípios activos, uma tarefa que apenas deve ser realizada pelos enfermeiros e médicos.

Vias de administração e formas farmacêuticas

Topo Os medicamentos apenas cumprem a sua função caso consigam aceder ao sector do corpo onde devem exercer a sua acção. Embora o ideal fosse que o medicamento pudesse ser sempre administrado de forma a que apenas agisse no tecido ou órgão afectado, de modo a evitar os eventuais efeitos secundários dos seus componentes activos sobre o resto do organismo, esta situação apenas é possível quando se consegue aceder directamente a partir do exterior à parte afectada, nomeadamente à pele, olhos, ouvidos... Nestes casos, costuma-se recorrer à administração por via tópica, sobre a zona afectada, de modo a que apenas proporcionem um efeito local: pomadas que devem ser aplicadas sobre a pele, gotas instiladas nos olhos e ouvidos... No entanto, como a maioria das doenças afecta os órgãos internos, os medicamentos apenas chegam aos mesmos através de outras vias de administração, já que, em primeiro lugar, têm de passar para a circulação, de forma a serem distribuídos através do sangue pelo corpo até alcançarem o ponto onde se pretende esse efeito. Existem várias maneiras para se conseguir este objectivo, como a administração de medicamentos por via oral, para que sejam absorvidos e passem para a circulação sanguínea, ou mediante a sua injecção nos tecidos ou directamente numa veia.

Consoante a via de administração utilizada, o medicamento apresenta diferentes características físicas, denominadas formas farmacêuticas ou de aparecimento. Caso seja aplicado na pele, o medicamento deve ser preparado, por exemplo, como uma pomada; se for ingerido por via oral, deve ser fabricado em comprimidos ou xarope; caso seja administrado através de uma injecção, deve ser líquido.

Absorção e metabolização

Topo Um medicamento administrado com o intuito de exercer efeitos benéficos sobre os tecidos ou órgãos internos apenas desempenha a sua função se alcançar o sector do corpo onde deve actuar, sendo essencial que chegue à circulação, para que seja distribuído com o sangue através do corpo, alcançando o seu objectivo. À excepção dos casos em que se recorre à administração intravenosa através da introdução do medicamento directamente no sangue, o primeiro passo corresponde à sua absorção: por exemplo, caso um medicamento seja administrado por via oral, os seus princípios activos têm de se libertar da forma farmacêutica e atravessar a mucosa do tubo digestivo, da mesma forma que os nutrientes presentes nos alimentos o fazem, para chegarem à circulação. Embora o medicamento alcance, após a sua administração, níveis de concentração no sangue progressivamente mais elevados, a diferente velocidade consoante a via de administração, os princípios activos começam, ao mesmo tempo, a sofrer transformações que vão gradualmente anulando a sua eficácia e, para além disso, vão sendo eliminados por vias diferentes, tendo em conta que, por um lado, são transformados em metabolitos inactivos, em especial no fígado, e, por outro lado, são expulsos do organismo, sobretudo através da urina. Todo este processo conhece-se por metabolização. O conhecimento da velocidade de absorção e metabolização de um medicamento é fundamental quando se tiver de prescrever o tratamento, já que só assim se pode assegurar que os princípios activos alcançam as correctas concentrações no sangue para que possam exercer a sua acção terapêutica.

Doseamento

Topo A quantidade de medicamento administrado com vista a exercer o seu efeito terapêutico, ao nível dos princípios activos, denomina-se dose. De qualquer forma, é possível diferenciar vários tipos de dose, pois quando se fala apenas de dose, refere-se à quantidade utilizada em cada administração, enquanto que a dose diária corresponde à quantidade de princípio activo que deve ser administrada ao longo de 24 horas. A dose mínima é a menor dose recomendada para que o medicamento exerça os seus efeitos e a dose máxima é a maior dose recomendada para que o medicamento exerça os seus efeitos benéficos sem que se evidenciem efeitos tóxicos.

Embora existam casos em que se consegue o efeito pretendido através da administração de uma única dose, costuma ser necessário proceder-se à administração de novas doses, a um determinado ritmo e durante um certo período, de modo a que a acção terapêutica se prolongue pelo perío- do de tempo necessário. Deve-se referir que, como os efeitos de um medicamento dependem da concentração sanguínea alcançada pelo princípio activo, caso esta concentração seja insuficiente, não será eficaz, e, caso seja excessiva, pode tornar-se prejudicial.

Ao prescrever o medicamento, o médico deve ter em conta as propriedades do produto, a rapidez da sua absorção e a velocidade de metabolização e eliminação, bem como as diferentes características do paciente que costumam condicionar estas questões: a idade, o peso, o sexo, a função hepática e renal, etc. É em função destes parâmetros que o médico deve indicar a quantidade de medicamento que deve ser administrada em cada dose, o tempo que deve passar entre cada dose e a duração total da terapêutica.

O medicamento apenas mantém uma concentração terapêutica eficaz e segura se as indicações do médico em relação às doses e à frequência das mesmas forem respeitadas, na medida em que, caso as doses sejam administradas mais intervaladas do que o aconselhado, podem existir momentos em que o medicamento não irá alcançar concentrações terapêuticas, enquanto que, caso sejam administradas mais vezes ou durante mais tempo do que o indicado, pode provocar concentrações tóxicas.

Riscos dos medicamentos

Topo Embora a maioria dos medicamentos se possa tornar tóxica caso seja administrada em doses excessivas, existem alguns que apenas proporcionam efeitos terapêuticos quando são utilizados em concentrações próximas às tóxicas, como é o caso dos digitálicos utilizados no tratamento da insuficiência cardíaca - por isso, nestes casos deve-se respeitar rigorosamente as doses prescritas pelo médico. Para além disso, mesmo quando são utilizados correctamente, os medicamentos podem ter, paralelamente aos seus efeitos benéficos, outros indesejáveis. Para além de actuarem sobre a parte do corpo afectada por uma doença, os medicamentos podem ter igualmente repercussões sobre o resto do organismo, originando efeitos secundários, que se manifestam através de reacções adversas desagradáveis, que se evidenciam de forma colateral às benéficas resultantes da administração de um medicamento às doses habituais. Embora sejam problemas previsíveis e inevitáveis, provocados pelas mesmas substâncias químicas que proporcionam a acção benéfica do fármaco, existem casos em que se evidenciam com muita intensidade; noutros são mínimos ou nulos. Esta situação pode ocorrer quando um medicamento altera as secreções digestivas, o que provoca dor abdominal ou náuseas, ou quando actua sobre o sistema nervoso e provoca sonolência. Embora a bula alerte para estes efeitos adversos, não devem constituir motivo de preocupação e não necessitam da suspensão do tratamento, pois não implicam um efeito tóxico. Todavia, caso estes sinais e sintomas sejam muito acentuados, deve-se consultar o médico para que este avalie uma alteração da dose, administre outros produtos que contrariem ou até mude de medicamento.

Uma outra possibilidade é provocarem reacções alérgicas. Neste caso, são reacções não previsíveis, pois não dependem da composição do medicamento, mas da sensibilidade individual de cada pessoa. Apesar de poderem ser reacções incómodas, mas não perigosas, como erupções cutâneas semelhantes à urticária , noutros casos podem ser graves e colocar a vida do indivíduo afectado em perigo.

Informações adicionais

Efeito placebo

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O efeito terapêutico de um medicamento não depende exclusivamente dos seus princípios activos, já que a simples acção de se tomar um fármaco considerado benéfico desencadeia reacções orgânicas que contribuem para a cura da doença contra a qual o mesmo é administrado, evidenciando o poder da nossa mente. Este fenómeno, denominado "efeito placebo", foi comprovado através de inúmeras experiências que demonstram que a administração de comprimidos de amido ou de injecções de água pura, sem que o paciente conheça a sua composição, é tão eficaz, por vezes, como o próprio medicamento. Daqui se deduz que, para além de o acto de prescrever ser tão importante como o conteúdo da prescrição, o efeito placebo proporciona abusos e enganos quando quem prescreve não é um profissional idóneo.

Nomes dos medicamentos

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Todos os medicamentos têmvárias denominações diferentes. Uma das denominações corresponde ao nome químico do princípio activo que constitui o medicamento, na maioria das vezes longo e muito complexo, difícil de recordar e até de pronunciar. Uma outra denominação corresponde ao nome genérico, mais curto e simples de recordar, que costuma ser o oficialmente aceite para cada fármaco. Por último, uma outra denominação corresponde ao nome ou marca comercial seleccionado pela empresa fabricante (por isso, existem medicamentos com uma composição praticamente idêntica com nomes comerciais diferentes). Deve-se referir que a Organização Mundial da Saúde conta com uma lista de nomes de medicamentos que correspondem à designada "denominação comum internacional" (DCI), algo extremamente útil, por exemplo, quando se viaja para outros países e se tem dificuldade em identificar o medicamento que se está a tomar devido ao facto de ter um nome comercial diferente.

O médico responde

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Embora o médico me tenha receitado um antibiótico durante dez dias para combater uma infecção, ao fim de três dias já fez efeito e sinto-me perfeitamente bem. Posso parar o tratamento?

Não, visto que, como a interrupção prematura do tratamento pode proporcionar uma recaída ou o desenvolvimento de complicações, deve-se cumprir sempre as instruções do médico. Embora esta norma se aplique, sobretudo, à terapêutica antibiótica, é válida para qualquer tipo de tratamento.

Os riscos da automedicação

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Designa-se automedicação quando alguém decide utilizar um medicamento por sua própria iniciativa ou seguindo os conselhos das pessoas mais próximas sem a devida prescrição médica. Embora seja um comportamento legítimo quando se pretende combater os problemas consequentes de uma patologia ligeira, como uma dor de cabeça, uma indigestão ou um quadro de obstipação, existem inúmeros casos em que pode provocar riscos significativos, já que se pode, por exemplo, interpretar os sinais e sintomas de forma errada, tendo em conta que existem várias doenças diferentes que provocam sinais e sintomas semelhantes e estas doenças necessitam, na maioria dos casos, de tratamentos diferentes. Existem situações em que, apesar de se ter seleccionado o medicamento correcto, como não é administrado nas doses adequadas às necessidades do caso, o tratamento pode ser insuficiente ou, pelo contrário, excessivo e prejudicial. Para além disso, a ingestão de um medicamento sem o conhecimento do médico, pode dissimular os sinais e sintomas de uma doença grave, complicando o diagnóstico e provocando perdas de tempo.

Indicações e contra-indicações

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As indicações de um medicamento correspondem às doenças ou processos patológicos em que a sua administração pode ser benéfica. Embora existam medicamentos indicados para um grande número de patologias, outros apenas o são para uma determinada doença. Para além disso, existem algumas doenças que apenas são tratadas com medicamentos muito específicos, enquanto que para outras costumam estar indicados inúmeros medicamentos, embora sem a mesma eficácia. Mesmo que a bula anexa aos medicamentos indique a sua utilização, deve ser o médico a decidir, consoante os casos, o medicamento mais apropriado. Por outro lado, as contra-indicações são as doenças ou processos fisiológicos como, por exemplo, a gravidez, em que a administração de um determinado medicamento não é aconselhável. Existem algumas contra-indicações absolutas, perante as quais nunca se deve tomar o medicamento, enquanto que outras são relativas, devendo-se considerar os benefícios e os riscos antes de decidir a sua utilização. Como as bulas anexas aos medicamentos costumam indicar as contra-indicações, constituem uma informação que deve ser consultada com atenção antes de se proceder à toma do medicamento.

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