Alterações no puerpério

O período posterior ao parto caracteriza-se pela produção de uma série de alterações no corpo da mulher, não só a nível genital, mas em todo o organismo, para que o mesmo regresse progressivamente à normalidade existente antes da gravidez.

Generalidades

Topo Ao longo da gravidez, o organismo da mãe passa por uma série de alterações, de modo a poder acolher e dar à luz um novo ser. Após o parto, estas modificações sofrem uma involução ao longo da qual o corpo da mulher vai recuperando as características anteriores à gravidez, embora algumas estruturas orgânicas, como o útero e os seios, não voltem a ser exactamente como antes. As alterações corporais ao longo do puerpério ocorrem seis semanas após o parto, ou seja, levam cerca de quarenta dias a manifestar-se, o que justifica o facto de este período ser igualmente denominado "quarentena".

Embora as alterações corporais ao longo do puerpério comprometam todo o organismo da mãe, afectam essencialmente os órgãos genitais, a musculatura pélvica e abdominal e, como é óbvio, o peso do corpo. Os seios passam igualmente por alterações fundamentais nesta etapa da vida, tendo em conta que, após o parto, começam a desempenhar a sua função essencial de produção do alimento do bebé.

A mulher que acaba de dar à luz deve conhecer as alterações corporais e as manifestações produzidas de forma espontânea e natural durante o puerpério, de modo a estar mais capacitada para distinguir e detectar com maior facilidade e rapidez o eventual aparecimento de uma série de sintomas e sinais que possam indicar o desenvolvimento de complicações, de menor ou maior gravidade, nesta etapa tão especial da vida.

lnvolução do útero

Topo As alterações no puerpério mais significativas ocorrem no útero, o órgão que durante a gravidez aumenta várias vezes de volume, de modo a albergar o novo ser, o líquido amniótico, a placenta e as membranas adjacentes. A evolução do parto, nomeadamente a fase de expulsão e o alumbramento, proporciona a desunião do útero do seu conteúdo de forma brusca, esvaziando-se ao fim de algumas horas. O puerpério caracteriza-se por uma significativa redução do volume do órgão, já que seis semanas após o parto volta a adquirir um tamanho quase idêntico ao que tinha antes da gravidez.

Todavia, antes que o órgão inicie a sua progressiva redução de tamanho, desenvolve-se um fenómeno mreflexo conhecido como "globo de segurança". Nas horas seguintes ao parto, o útero contrai-se de forma intensa e adquire uma consistência dura muito característica, fazendo com que as suas paredes comprimam os vasos sanguíneos que nutriam a placenta e que ficam abertos após o alumbramento, impedindo a produção de uma hemorragia. Esta intensa contracção do útero costuma persistir até ao dia seguinte ao parto, altura em que o limite superior do órgão, facilmente palpável ou até observável a olho nu nas mulheres magras, se localiza cerca de 2 a 3 cm abaixo do umbigo. Deve-se referir que este fenómeno pode ser acompanhado por uma sensação de arrepios generalizados, na maioria dos casos muito intensos, semelhantes aos provocados pelo frio ambiental e que, embora se possam tornar desagradáveis, não constituem qualquer perigo.

Caso os vasos sanguíneos que nutriam a placenta fiquem abertos após o alumbramento, o mecanismo de coagulação proporciona o seu encerramento, enquanto que o relaxamento das fibras do útero faz com que o órgão se volte a distender. Ao longo desta fase, o limite superior do órgão situa-se um pouco acima do umbigo. A partir dessa altura, o tamanho do útero vai progressivamente diminuindo, visto que, dois dias depois, o limite superior do órgão pode ser palpado à altura do umbigo, ao fim de uma semana situa-se a meio caminho entre o umbigo e a extremidade superior da púbis, enquanto que cerca de dez dias depois fica mesmo por cima da púbis. Após estes dez dias, deixa de ser possível palpar o útero, pois este fica inserido na cavidade pélvica, enquanto que, cerca de três a seis semanas após o parto, o órgão recupera o tamanho e a posição que tinha antes do início da gravidez.

Lóquios e dor abdominal

Topo Após o parto, o interior do útero continua a albergar restos da parte uterina da placenta e coágulos de sangue, elementos que devem ser eliminados através de específicas secreções vaginais denominadas lóquios. Tanto o volume como o aspecto destas secreções vão-se alterando à medida que os tecidos uterinos regressam à normalidade. Ao longo das primeiras horas do período pós-parto, os lóquios são abundantes e de cor vermelha, pois são constituídos essencialmente por sangue. Ao fim de dois a quatro dias, começam a ser menos volumosos e tornam-se rosados. Por último, uma semana após o parto, tornam-se escassos, de consistência cremosa e de tonalidade esbranquiçada.

Os lóquios costumam desaparecer ao fim de um período de tempo que oscila entre dez dias a duas semanas após o parto, embora as secreções esbranquiçadas possam persistir até cerca de cinco semanas. É importante que a mulher observe e controle estas secreções, já que o aparecimento de algumas anomalias das mesmas pode ser provocado pelo desenvolvimento de uma complicação no puerpério. Caso estas secreções infectem, devido à eventual retenção de um fragmento de placenta, que deverá sempre ser extraído, emanam um odor fétido bastante típico, tendo a tendência para manter o seu aspecto inicial durante mais de duas semanas.

Deve-se referir que, para facilitar a eliminação dos resíduos que alberga após o parto, o útero passa por contracções muito intensas, que provocam dores abdominais, as quais embora sejam semelhantes às do período pré-parto são menos intensas. As dores abdominais costumam ser mais evidentes nas mulheres multíparas do que nas que tiveram o seu primeiro filho, nas quais persistem durante cerca de quatro dias, embora a sua frequência e persistência sejam muito variáveis. De qualquer forma, pode-se recorrer à administração de medicamentos analgésicos para aliviar estas dores.

Micções

Topo Os problemas ao nível do funcionamento da bexiga, ao longo dos últimos dias de gravidez e durante os primeiros do pós-parto, são muito comuns, pois a capacidade de encher e esvaziar o órgão é afectada por circunstâncias tão distintas como a acumulação de líquidos resultante da gravidez e a consequente redistribuição no pós-parto, o esvaziamento do útero, a utilização de anestesia epidural ou a eventual utilização de fórceps, espátulas ou ventosa obstétrica para facilitar a saída do feto.

A mulher costuma, ao longo dos primeiros dias do puerpério, apresentar uma certa tendência para a retenção da urina, sobretudo devido a uma diminuição do tónus da bexiga, que se manifesta através de uma redução na frequência e volume da urina emitida ou, muito pelo contrário, mediante uma incontinência urinária por trasbordamento.

Estes problemas são, felizmente, quase sempre passageiros, tendo em conta que, ao fim de algumas horas ou poucos dias, a mulher costuma recuperar o seu ritmo de micção normal. Todavia, em alguns casos, sobretudo quando persiste uma incontinência, como sucede com maior frequência quando o parto é prolongado, recomenda-se a realização de uma fisioterapia específica para se conseguir um fortalecimento do esfíncter urinário.

Peso do corpo

Topo O puerpério caracteriza-se por uma evidente perda do peso do corpo. Em primeiro lugar, devido ao próprio esvaziamento do útero, que se desprende bruscamente do feto, da placenta, das membranas adjacentes e do líquido amniótico, elementos que em conjunto representam em média cerca de 5 kg. Para além disso, a diminuição do peso do corpo é igualmente proporcionado pela progressiva eliminação dos líquidos que se iam acumulando no organismo durante a gravidez, os quais supõem, em média, outros 4 kg, sendo perdidos lentamente ao longo das seis semanas que corres- pondem ao puerpério.

No fim do puerpério, as mulheres costumam pesar, em média, 2 kg a mais do que pesavam antes da gravidez ou até mais, caso se proceda à amamentação materna - neste caso, a mãe necessita de uma maior ingestão de calorias. A realização de exercício físico e de dietas controladas costumam contribuir para uma redução harmoniosa do peso do corpo durante os meses seguintes ao parto e também para se fortalecer a musculatura abdominal e perineal. Todavia, até nestes casos apenas se costuma recuperar o peso habitual antes da gravidez, em média, ao fim de cerca de seis meses após o parto.

Restabelecimento do período

Topo As alterações significativas no equilíbrio hormonal não param com a realização do parto, já que a eliminação da placenta trava a produção da hormona gonadotrofina coriónica, o que consequentemente diminui a produção de progesterona por parte do corpo lúteo da gravidez. Estas alterações proporcionam, mais tarde ou mais cedo, o recomeço do ciclo ovárico e o restabelecimento das menstruações.

Caso a mulher não amamente o seu novo filho, a menstruação costuma reaparecer cerca de sete a nove semanas após o parto. Por outro lado, caso se opte pela amamentação materna, o reaparecimento do período apenas ocorre após a interrupção da dita actividade, embora o momento em que os períodos se voltam a estabelecer varie bastante consoante os casos, já que por vezes reaparecem enquanto se mantém a amamentação.

Como não se costumam produzir ovulações ao longo dos primeiros ciclos menstruais do pós-parto, são raros os casos em que se inicia uma nova gravidez ao longo deste período. Todavia, caso a mulher prolongue a amamentação materna durante alguns meses, pode-se produzir uma ovulação antes do aparecimento da primeira menstruação. Deve-se ter em conta esta eventualidade, pois ao contrário do que se costuma acreditar é possível que a mulher fique grávida durante a amamentação, mesmo que não surjam menstruações.

Informações adicionais

Músculos perineais e abdominais

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O facto de os músculos da parede abdominal e os do períneo se distenderem progressivamente, ao longo da gravidez, à medida que o útero vai crescendo, faz com que os músculos rectos do abdómen, que percorrem paralelamente a parede abdominal anterior, acabem frequentemente por se desunir. Por outro lado, o esvaziamento brusco do útero após o parto faz com que estes músculos fiquem distendidos, flácidos e debilitados.

Estas massas musculares costumam recuperar a sua forma e vigor habituais de forma gradual, ao fim de seis ou sete semanas. Todavia, enquanto persistir a debilidade da musculatura abdominal e perineal convém que a mulher evite os movimentos e pesos que possam representar um esforço excessivo ou demasiado contínuo, tais como carregar sacos pesados ou apoiar o bebé sobre a barriga quando se encontra de pé. Por outro lado, a realização de uma série de exercícios físicos, como é detalhadamente explicado no capítulo correspondente, favorece o seu regresso à normalidade.

Ligamentos

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Dado que os ligamentos que sustentam o útero no interior da pélvis podem ficar distendidos após o parto, por vezes, o órgão tem a tendência para descer, chegando até a formar uma saliência na vagina, num processo designado prolapso do útero. A mulher pode prevenir esta complicação evitando permanecer de pé durante períodos prolongados nos primeiros dias após o parto.

O médico responde

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A minha filha acaba de dar à luz e queixa-se de não conseguir defecar, embora deseje fazê-lo, devido a uma dor que a impede de fazer força para o conseguir. O que pode fazer para o remediar?

Existem vários factores que dificultam as evacuações intestinais ao longo do período inicial do pueipério. Por um lado, é normal que ao longo desta e'poca persista uma certa tendência para a obstipação habitual da gravidez. Por outro lado, caso o parto tenha proporcionado rupturas no tecido perineal ou caso se tenha realizado uma episiotomia, costuma-se evidenciar uma dor na zona que impede a mulher de realizar a força necessária para defecar. Para além disso, é igualmente frequente que, ao longo do puopério, se manifestem hemorróidas desenvolvidas durante a gravidez, que por sua vez favorecem a obstipação. Embora estes problemas sejam, em alguns casos, resolvidos de forma espontânea, nos restantes deve-se recorrer à aplicação de frio local e à administração de laxantes suaves para reduzir a inflamação e a dor, para que o intestino normalize o seu funcionamento.

Estado melancólico pós-parto

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Para além das transformações no corpo, a mulher costuma ser, ao longo do puerpério, afectada por uma alteração do seu estado de ânimo, uma espécie de estado melancólico, compatível com uma ligeira depressão, devido às bruscas alterações ocorridas nas últimas semanas da gravidez e nas primeiras do pós-parto: o esgotamento físico, o sono interrompido para alimentar o bebé, as alterações hormonais, os problemas próprios desta fase, o encontro com o seu novo filho e as responsabilidades inerentes ao facto de ser mãe.

Este estado melancólico, que afecta 50 a 80% das mulheres e que não deve ser confundido com a denominada depressão pós-parto, caracteriza-se por bruscas alterações de humor, sensação de vulnerabilidade, tendência para chorar com facilidade e uma frequente sensação contraditória de perda que contrasta com a realização própria da gravidez e a alegria pelo nascimento do novo ser, sobretudo quando se trata do primeiro filho. Estas manifestações não devem causar inquietação, pois o estado melancólico é um problema muito comum e o melhor que a mulher deve fazer é partilhar os seus sentimentos com o companheiro, familiares, amigos e médico.

Embora este estado melancólico costume desaparecer de forma espontânea ao fim de alguns dias ou poucas semanas, sobretudo quando se conta com o apoio eficaz dos entes queridos, caso seja demasiado intenso ou persistente, a mulher deve consultar o seu médico, pois pode-se tratar de uma depressão, que necessita de ser tratada. Calcula-se que cerca de 10% das mães é afectada por uma depressão pós-parto, embora apenas numa em cada 1 000 seja grave, sobretudo nas mulheres que apresentam uma predisposição especial, sendo necessário um tratamento antidepressivo complementado com a adequada psicoterapia.

Para saber mais consulte o seu Obstetrícista / Ginecologista ou o seu Pediatra
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