Inflamações e infecções

Os processos inflamatórios do aparelho genital feminino, normalmente de natureza infecciosa, originam manifestações distintas consoante a zona do problema e, por vezes, provocam complicações ou sequelas.

Vulvite

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A vulvite corresponde à inflamação da vulva, na maioria dos casos, originada por uma infecção consequente da extensão de um processo semelhante na vagina (vulvovaginite). Todavia, noutros casos, a vulvite é provocada por uma irritação ou reacção alérgica desencadeada pelo contacto com cremes ou produtos utilizados na higiene íntima. Por fim, pode igualmente evidenciar-se sem causa aparente devido a alterações produzidas na zona após a menopausa, originadas pela diminuição das hormonas sexuais femininas, um facto que provoca um certo grau de atrofia e emagrecimento dos tecidos da vulva.

O problema tanto pode ter uma evolução aguda como crónica. A forma mais comum corresponde à vulvite aguda, que se manifesta essencialmente através de ardor na zona, que normalmente fica tumefacta e vermelha. Para além disso, a emissão de urina é acompanhada por uma sensação de ardor, enquanto que as relações sexuais são desconfortáveis e até dolorosas. O problema pode ser, na maioria dos casos, curado em poucos dias, independentemente de ser de forma espontânea, através da resolução da causa desencadeadora, ou graças ao oportuno tratamento. Todavia, caso a infecção não seja devidamente tratada ou o factor desencadeador perdure, pode originar uma vulvite crónica, com manifestações menos intensas, mas persistentes, sobretudo ardor que leva a paciente a coçar-se - esta situação proporciona a produção de pequenas lesões na delicada mucosa que prolongam o problema.

O tratamento depende da natureza do processo inflamatório. Quando é provocada por uma infecção, o tratamento baseia-se na identificação do agente causador e na administração dos medicamentos antimicrobianos ideais para o combater. Quando o problema é provocado por uma atrofia pós-menopáusica, deve-se recorrer à aplicação de cremes com estrogénios, pois proporcionam a regeneração da mucosa da vulva.

Vaginite

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A vaginite é a inflamação do canal vaginal, normalmente de origem infecciosa, que se pode prolongar até à vulva (vulvovaginite) e, por vezes, até ao colo uterino (cervicovaginite). O problema pode ser provocado por vários tipos de agentes infecciosos, tanto vírus como bactérias e fungos, na maioria dos casos transmitidos através de relações sexuais, enquanto que noutros se propagam do ânus para a zona genital devido a uma higiene inadequada ou através do contacto com as mãos ou objectos contaminados. Para além disso, existem microorganismos já presentes na região que não originam alterações e que apenas se tornam patogénicos se encontrarem as condições favoráveis.

O problema evidencia-se, sobretudo, através do aparecimento de um fluxo vaginal anómalo, ou leucorreia, normalmente acompanhado pelos sinais e sintomas próprios de uma vulvite, como por exemplo sensação de ardor ou queimadura, e na maioria dos casos por sinais e sintomas gerais, tais como mal-estar, cansaço e febre moderada; ocasionalmente, pode-se verificar uma dor na parte baixa do abdómen que, por vezes, irradia para as costas. A intensidade destas manifestações e das características do fluxo vaginal anómalo variam muito consoante o agente causador e também em função da evolução do problema, já que os sinais e sintomas costumam ser muito intensos nas formas agudas, sendo por outro lado pouco significativos na maioria dos casos de evolução crónica. Por exemplo, a vaginite gonorreica, provocada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, costuma evoluir de forma crónica e sem originar manifestações evidentes na mulher adulta, enquanto que nas crianças e adolescentes normalmente adopta uma forma aguda, provocando uma abundante leucorreia amarelada e uma notória inflamação da mucosa genital. A infecção originada pela Gardnerella vaginalis, um microorganismo normal, muitas vezes presente na flora vaginal, que se torna patogénico ao encontrar as condições favoráveis para a sua proliferação, costuma originar um fluxo branco e nauseabundo, ardor ao urinar e dor durante o coito. A vaginite provocada pelo protozoário Trichomonas vaginalis costuma provocar um abundante fluxo amarelado de aspecto espumoso e nauseabundo, um intenso ardor vulvovaginal, desconforto ao urinar e dor no coito, embora os sinais e sintomas nas formas crónicas sejam  escassos ou praticamente inexistentes. A vaginite originada pelo fungo Candida albicans costuma provocar um fluxo esbranquiçado granulado, de aspecto semelhante ao requeijão, uma intensa tumefacção da zona genital, ardor, dor na região vulvoperineal, ardor ao urinar e desconforto no coito. Embora estas manifestações desapareçam ao fim de um determinado período de tempo, reaparecem após as relações sexuais. Existem infecções provocadas por outros agentes que causam lesões específicas, como em caso de sífilis ou de herpes genital.

Cervicite

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A cervicite corresponde à inflamação do colo do útero, ou cérvix, um problema que costuma ser provocado por uma infecção consequente de uma vaginite (cervicovaginite) e que se manifesta através dos mesmos sinais e sintomas existentes em caso de infecção vaginal. Nos casos raros em que se evidencia uma cervicite aguda isolada, provocada por uma infecção genital ou como consequência de uma lesão traumática, por exemplo, durante um parto, o problema costuma evoluir sem manifestar sinais ou sintomas, passando despercebido a menos que se examine a zona por outro motivo. A cervicite crónica isolada é muito mais comum e as suas principais manifestações correspondem ao aparecimento de um fluxo vaginal anómalo, normalmente espesso e de cor amarelada, de pequenas hemorragias vaginais fora da menstruação, sobretudo após o coito, e dores, embora pouco intensas, na região inferior do abdómen.

Apesar de as manifestações da cervicite não serem intensas, podem provocar complicações graves. De facto, uma infecção localizada inicialmente no colo uterino pode propagar-se ao interior do útero e daí para as trompas de Falópio, originando endometrites e salpingites. Para além disso, a infecção do colo uterino numa mulher grávida pode ser transmitida ao filho durante o parto. Por outro lado, existem algumas infecções, sobretudo as de natureza viral e de evolução crónica, que podem favorecer a transformação maligna das células da mucosa, o que constitui um factor de predisposição para o desenvolvimento de um cancro cervical.

O tratamento de uma infecção do colo uterino baseia-se inicialmente na administração de antibióticos ou antivirais, consoante o agente causador. Caso a infecção persista, deve-se proceder à destruição da zona inflamada através de electrocoagulação ou aplicação de laser, prevenindo-se qualquer complicação.

Endometrite

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A endometrite corresponde à inflamação do endométrio, a camada mucosa que reveste a cavidade uterina, e pode ser originada por uma infecção em órgãos adjacentes, independentemente de ser proveniente dos genitais externos ou das trompas de Falópio, evidenciando-se principalmente no puerpério, após o parto ou um aborto e, por vezes, devido à retenção de restos de tecido daplacenta.

As principais manifestações do problema são dor abdominal, febre e um fluxo vaginal anómalo. Em caso de endometrite puerperal removidos os restos placentários. Caso não se proceda ao seu oportuno tratamento, baseado na administração de antibióticos contra o microorganismo causador e, eventualmente, na eliminação de todos os corpos estranhos no interior do útero, a infecção pode disseminar-se e originar complicações graves.

Por outro lado, a inflamação da mucosa interior do útero pode desencadear a formação de cicatrizes e aderências que podem provocar infertilidade.

Salpingite

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O termo salpingite designa a inflamação das trompas de Falópio, normalmente de origem infecciosa. Os microorganismos costumam aceder às trompas por via ascendente a partir de uma infecção dos genitais externos, normalmente sexualmente transmissível e, por vezes, não detectada - os agentes causadores mais frequentes são o gonococo (Neisseria gonorrhoeae) e as clamídias. A infecção das trompas de Falópio pode igualmente ser produzida por complicações ocorridas em partos e abortos ou, mais raramente, devido à disseminação sanguínea de microorganismos provenientes de outros sectores do organismo.

As manifestações são muito variáveis, já que a doença tanto pode ter uma evolução aguda com sinais e sintomas muito intensos como apenas provocar desconforto ou evoluir sem manifestar quaisquer sinais ou sintomas, pelo menos nas fases iniciais, chegando até a passar despercebida. Quando a doença provoca sinais e sintomas, a manifestação mais comum é o aparecimento de dor na parte inferior do abdómen, normalmente intensa e persistente. Costuma também expressar-se através de febre, hemorragias vaginais nauseabundas, por vezes de tecidos, e problemas urinários (micções frequentes e com dor).

Caso não se proceda ao devido tratamento, a infecção não se costuma curar de forma espontânea, provocando complicações agudas ou adoptando uma evolução crónica. Em alguns casos, a infecção origina a formação de um abcesso, ou seja, a acumulação de pus no interior da trompa afectada, uma complicação designada piossalpinge, em que o rompimento do abcesso favorece a disseminação do pus para o interior da cavidade abdominal, provocando um grave quadro de peritonite. Noutros casos, a infecção torna-se crónica e origina manifestações como dores no baixo ventre e nas costas, mais intensas durante o período menstrual, hemorragias vaginais anómalas e dor durante o coito.

Por outro lado, tanto as infecções agudas como crónicas podem danificar os septos no interior das trompas, provocando o aparecimento de cicatrizes e aderências que obstruem em maior ou menor grau a entrada destes canais. Caso se produza a obstrução total de ambas as trompas, o problema pode provocar, como sequela, a infertilidade, em que os óvulos libertos pelos ovários não conseguem avançar ao longo do interior dos canais para serem fecundados. Caso a obstrução não seja total, é possível que um óvulo, mesmo que seja fecundado, fique retido no interior da trompa, o que proporciona uma gravidez ectópica.

O tratamento da salpingite, inicialmente, baseia-se na administração de antibióticos. Todavia, caso a infecção persista, mesmo com a realização de terapêutica, e quando surgirem complicações, como a formação de um abcesso, é preciso recorrer à cirurgia.

Informações adicionais

Prevenção

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As infecções vulvovaginais são de tal forma frequentes que todas as mulheres sofrem um episódio, pelo menos uma vez, ao longo da vida. Grande parte delas são afectadas pelo problema várias vezes e algumas, particularmente sensíveis, em repetidas ocasiões. De destacar que existem vários factores, perfeitamente evitáveis, que propiciam a chegada de microorganismos ao aparelho genital ou favorecem a criação do meio para a proliferação de determinados micróbios.

A vagina é constituída por uma flora microbiana, que em condições normais não origina problemas, composta por microorganismos inofensivos ou até benéficos, como os bacilos de Döderlein, que produzem substâncias ácidas, de modo a criarem condições inadequadas para a proliferação de microorganismos patogénicos, o que faz com que qualquer alteração da flora vaginal constitua um factor que favorece os processos infecciosos. Uma das formas de alterar a flora vaginal consiste na realização de uma higiene íntima excessiva.

Por outro lado, após as necessidades fisiológicas, a limpeza deve ser realizada de frente para trás, nunca ao contrário, pois assim arrastam-se os microorganismos presentes à volta do ânus para a região genital.

A utilização de roupa interior de tecido sintético, sobretudo muito apertada, favorece as condições de humidade e temperatura que determinam o meio propício para o desenvolvimento microbiano. Por último, a utilização do preservativo nas relações sexuais é fundamental.

Bartholinite

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A bartholinite corresponde à inflamação das glândulas de Bartholin, igualmente denominadas glândulas vestibulares maiores ou paravaginais, normalmente de origem infecciosa. Estas ditas glândulas, situadas no vestíbulo vulvar, encarregam-se da produção de uma secreção lubrificante e desaguam na parte inferior da face interna dos pequenos lábios, uma em cada lado do orifício vaginal. Entre os microorganismos responsáveis pelo problema infeccioso destaca-se a bactéria Neisseria gonorrhoeae, o agente causador da gonorreia, cujo contágio se efectua através de contacto sexual, embora a patologia também seja frequentemente provocada por microorganismos, tais como os estreptococos, os estafilococos e a Escherichia coli.

A infecção provoca a obstrução do canal de drenagem da glândula afectada, provocando a retenção das secreções contaminadas, o que origina, por sua vez, a formação de uma acumulação de pus no interior da glândula, ou seja, de um abcesso. Neste caso, a glândula fica tumefacta e vermelha e o problema manifesta-se através de dor, normalmente intensa, que aumenta ao caminhar devido ao roçar.

O pequeno lábio do lado afectado costuma ficar totalmente tumefacto e, por vezes, é perceptível a saída de pus através do orifício de saída da glândula afectada.

Embora o tratamento, de início, se baseie na administração de antibióticos, caso se forme um abcesso costuma ser necessário proceder-se à drenagem do pus através de uma punção ou mediante a realização de uma simples intervenção cirúrgica efectuada em ambulatório.

O médico responde

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Pensei em utilizar um dispositivo intra-uterino como método contraceptivo, mas ouvi dizer que favorece as infecções nos órgãos genitais. É verdade?

O dispositivo intra-uterino, ou DIU, é um pequeno mecanismo que deve ser colocado no interior do útero e que, embora seja muito eficaz em evitar a gravidez enquanto lá estiver inserido, de facto, provoca alguns inconvenientes, nomeadamente a predisposição para o padecimento de infecções genitais. Esta predisposição é provocada pelo facto de o dispositivo, do qual existem vários modelos, ser constituído por fios que, após a colocação do DIU no útero, sobressaem do mesmo e pendem sobre a vagina, o que proporciona uma ligação que facilita a subida de microorganismos do canal vaginal para o interior do útero, determinando que a portadora seja mais sensível a infecções genitais. De qualquer forma, o risco de ocorrência deste tipo de complicação costuma ser muito reduzido e a maioria das mulheres que adoptam o DIU como método contraceptivo não sofrem qualquer problema. Todavia, caso uma mulher portadora de DIU detecte o desenvolvimento de algum tipo de problema na zona genital, por exemplo dor abdominal, mesmo que não seja intensa, ou um fluxo vaginal anómalo, deve consultar o ginecologista o mais rápido possível.

Doença inflamatória pélvica

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A doença inflamatória pélvica designa a infecção de vários órgãos internos do aparelho genital feminino e das estruturas adjacentes. O problema é, na maioria dos casos, provocado por microorganismos transmitidos por via sexual, embora também possa ser originado devido a uma eventual complicação no decorrer do parto. Por vezes, o foco infeccioso inicial localiza-se na camada mucosa que reveste o útero (endometrite) enquanto que noutros casos reside nas trompas de Falópio (salpingite), de onde se dissemina para a cavidade abdominal.

Os sinais e sintomas dependem do grau de evolução do problema. Por vezes, a manifestação inicial corresponde a uma dor na zona abdominal inferior, em ambos os lados, normalmente acompanhada por febre moderada e pequenas hemorragias vaginais intermenstruais. Este problema pode persistir por um período de tempo mais ou menos prolongado, após o qual se agrava, provocando o aumento da dor abdominal e a subida da temperatura do corpo, associada a uma notória afectação do estado geral. Noutros casos, o problema apenas se evidencia depois da ruptura do abcesso tubárico, originando uma pelviperitonite, uma complicação extremamente grave que pode provocar a morte da paciente. Nestes casos, deve-se proceder à imediata hospitalização da paciente, de modo a proceder-se a um diagnóstico preciso e à aplicação do oportuno tratamento, baseado na administração de antibióticos e, eventualmente, na realização de uma intervenção cirúrgica de urgência.

Para saber mais consulte o seu Obstetrícista / Ginecologista
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